Seu corpo pedia socorro, mas ela só pensava na conta de aluguel. Um cliente atrás do outro e a saúde cada vez mais debilitada. Geni ouvia Chico Buarque e sonhava com o comandante de um zepelim. Mas isso nunca aconteceu. Depois percebia que nunca poderia ser de um só, que preferia ser apedrejada, humilhada, suja com o resto dos que se dizem humanos, do que pertencer a alguém. A verdade é que Geni era do mundo mas não cabia em lugar algum.
sábado, 31 de agosto de 2013
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
12 - Das ilusões
Ele vinha religiosamente todas as terças a noite. Como era cliente fixo, Geni o recebia em sua própria casa. Seria seu cliente preferido se não tivesse o péssimo hábito de dormir logo após o primeiro orgasmo. Geni, sempre tentando ver o lado bom da vida, deixava que ele passasse a noite ali mesmo, dormindo ao lado dela. Em troca fantasiava ser sua esposa e colocava os braços dele sobre seu corpo. Foi o mais próximo que Geni chegou ao que chamamos de casamento.
terça-feira, 16 de julho de 2013
11 - Do que ganha
Geni não é puta rampeira. Mas
também não é puta de luxo. Devido ao corpo invejável conseguiu um bom cafetão
logo no começo. Fez alguns trabalhos como ficha rosa também, mas a boa quantia
de dinheiro que o serviço lhe rendeu ela gastou em pó. Com o tempo o corpo e
principalmente a expressão facial mudaram – e o cachê também. Mas Geni ainda
tem (bons) clientes fixos, o que lhe dá a segurança de sempre ter dinheiro pra
pagar os produtos que compra por catálogo de sua vizinha.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
10 - Das promessas esquecidas
Uma ou duas carreiras e lá está
ela, pronta pro trabalho. A saia mais colada combina com o salto mais alto.
Mesmo depois de cinco anos de profissão, seu corpo ainda chama atenção – o que
significa dinheiro. No começo prometeu a si mesma que só faria o serviço se
fosse com a cara do cliente. Um tempo e algumas contas depois a promessa ficou
esquecida.
terça-feira, 9 de julho de 2013
9 - Do tal verdadeiro prazer
Não se contendo a dar a tantos,
durante o sono ainda geme um certo nome e clama: “Esse corpo é teu meu bem,
mesmo sendo vendido a outros, é sempre teu. Você não precisa pedir permissão,
quando você chega ele já treme, te reconhece, te pede. Eu te preciso, nem que
seja em frações, nem que seja em uma dose “. Acorda suada e percebe que ainda tem muitos indesejáveis pela frente até que seu dia termine. Mas hoje ela trabalha com um sorriso, pois sonhou com ele.
segunda-feira, 8 de julho de 2013
8 - Dos desejos interrompidos
Foi pagar uma conta no banco –
sim, putas também pagam contas, vão à lotérica, ao supermercado... – na fila
avistou uma mulher com uma barriga enorme, uns seis ou sete meses, deduziu ela.
Geni lembrou-se das três vezes em que deveria ter passado por aquele processo,
mas o interrompeu bem antes que a barriga chegasse a aparecer. Cytotec pra que
te quero. Mas Geni tem sentimentos, bem de vez em quando, mas tem. Ela se
protegia sim, seguia as normas do Ministério da Saúde e só dava se fosse com
camisinha. Mas em todos esses anos falhas aconteceram. “No que eu vou dizer que
trabalho se me perguntarem na hora da matrícula?”, “E se a mãe de algum
coleguinha quiser me conhecer, ou pior, e se o pai quiser me conhecer? E se já
tiver sido meu cliente?” Eram tantas as indagações que a escolha pelo remédio
era certa. Mas Geni seguia sonhando em poder desenvolver até o fim dos nove
meses a própria cria de seu ventre.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
7 - Dos pequenos incidentes
Já começou lhe rasgando a roupa. “Isso vai te
custar a mais seu pau no cu”, pensou. Suas mãos eram pequenas e faziam um
enorme esforço pra segurar os enormes seios dela. Tão pequeno quanto a mão era
seu órgão. Geni foi muito profissional e segurou o riso. Abriu as pernas. E lá
foram os gemidos e gritinhos que ela já conseguia reproduzir com tal perfeição
que se passasse a usar um gravador para poupar a voz ninguém desconfiaria.
Trabalho feito, dinheiro na mão – inclusive o da roupa rasgada – lá foi ele
embora. E lá foi ela ligar para melhor amiga para lhe contar sobre o pequeno
incidente. “Menina, não é mesmo que a diversão está nas pequenas coisas?”.
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